quinta-feira, 26 de março de 2015

Poesia sem rima

Mostrei um poema à minha prima e, após um rápido passar-de-olhos, ela sentenciou:
Não tem rima!
Foi um choque pra mim – não por causa da opinião em si, afinal, minha prima nunca nem ouviu falar em Mário Quintana, mas pelo fato de que o senso comum pudesse pensar do mesmo jeito.
poesia se divorciou da rima a mais de cem anos, com o advento do Modernismo; Manuel Bandeira, em um de seus célebres poemas, disse “estou farto do lirismo que não é libertação”; depois veio o Concretismo e seus desdobramentos e o poema tornou-se processo; a obra “Unir”, de Walter Carvalho, por exemplo, não possui sequer uma letra:


Hoje a poesia é tudo isso e muito mais, apesar de o senso comum desqualificá-la implacavelmente – rimas e sentimentalidades são o fardo que os poetas carregam, são o preço que os poetas pagam num mundo que só entende de carros e só pensa em dinheiro. Porca miséria! abri o jornal e fui ler. Dei de cara com um poema intitulado “Esperança”, de Letícia Mariano:

Olhe à sua volta,
Abra os olhos,
Perceba as sombras...

Acenda as luzes...
Observe o que está
Sendo feito
Em nosso Planeta!

Imagine um
Pôr do sol
Belo de se ver...

Deixe as luzes
Trazerem esperanças...

Os mares,
Os peixes,
A grama,
O trigo...
Tudo é vida!

Mais uma vez,
Olhe ao redor...
O quadro de escuridão
Se modifica...
Um mundo sem sombras,
Banhado de amor!

- Alegorias do inferno! – sentenciei.
Eu o teria escrito em bem menas linhas.

Olhe à sua volta,
Abra os olhos,
Perceba as sombras...
Os mares,
Os peixes,
A grama,
O trigo...
Tudo é vida!

[Poema extraído do Jornal Zero Hora – edição de 19 de março de 2015, pág.44]

terça-feira, 17 de março de 2015

Impeachment?

No último dia 15 de março o povo brasileiro foi às ruas para reivindicar, entre outras coisas, o fim da corrupção e o impeachment da presidenta Dilma. Foi bonito até; a cobertura televisiva narrava o fato com um tom grave, não sei se para aumentar a audiência ou para fortalecer o significado do protesto; em São Paulo, reduto da Direita, contaram-se mais de 1 milhão de pessoas.
No país recentemente se descobriu o maior esquema de corrupção da História; o PT, partido de Dilma, tem vários de seus membros envolvidos, exceto a própria presidenta. Este fato, associado à divisão política da nação – 48% dos eleitores votaram no candidato tucano – motivaram a passeata contra os ladrões; o manifesto que pedia o impeachment, no entanto, não se justifica. Por que derrubar alguém que foi democraticamente eleito? Por que derrubar alguém cuja conduta moral é idônea? Por que derrubar alguém que segurou a taxa de emprego durante a maior crise econômica dos últimos 70 anos? Não se justifica – é rancor. A oposição, aproveitando-se de um momento difícil do governo, tem instigado o povo contra a presidenta; o medo deles é que o mandato do PT se prolongue para além dos 16 anos, que irão terminar em 2018, pois, quando se fica longe do poder durante um período tão longo, perde-se muitos benefícios políticos, inclusive a possibilidade de roubar; o leitor, mesmo o que não for esperto, sabe do que eu estou falando, sabe que a corrupção não tem partido, sabe que, com impeachment ou sem, a roubalheira continuaria acontecendo; ninguém é burro, tudo é uma questão de matemática, se o PT é o investigado da vez é por que quase todos os cargos pertenciam ou pertencem ao PT, se pertencessem ao Partido Cristão ou ao Partido Verde, então os corruptos seriam os seus representantes; o câncer não se encontra na forma, mas na essência – é na educação moral da população brasileira que está enraizada a doença.
Mas este é um outro debate. Tiro duas conclusões desta manifestação: 1°) o que a oposição faz agora – jogando o povo contra a presidenta sem medir consequências – é tão grave quanto o que alguns membros do PT fizeram ao se corromperem; 2°) para o bem ou para o mal, a democracia brasileira se fortalece.

sábado, 14 de março de 2015

Cartas a um Jovem Poeta

A muitos anos atrás – sete ou oito – encontrei, num sebo, enfiado no final de uma prateleira, um livro que, de cara, me pareceu interessante. Tratava-se de “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke; eu sequer conhecia o autor, mas, depois de umas folheadas, resolvi comprar a obra. A leitura, porém, eu a consumei somente esta semana.
As cartas, que são dez, narram os conselhos que Kappus – um jovem que sonhava em se tornar poeta – recebeu de Rilke. Mas estes conselhos não são de ordem técnica ou crítica, antes disso, “[...] tratam da formação humana, base de toda criação artística”, como bem resumiu Cecília Meireles, no prefácio. Ao invés de falar sobre como se deve escrever um texto, Rainer propõe reflexões do tipo “Já se modificaram muitas noções relativas ao movimento; há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles” (p.64). São palavras de sabedoria que procuram tocar o íntimo. “Até o comer, os homens transformaram em algo diferente: a carência de um lado, o excesso de outro perturbaram a clareza desta necessidade; e todas as necessidades elementares em que a vida se renova tornaram-se igualmente turvas. O indivíduo, porém, pode esclarecê-las para si mesmo e vivê-las às claras (não todos os indivíduos demasiado dependentes, mas pelo menos os solitários).
Sobre a arte de escrever, propriamente dita, Rilke apenas alertava: “Deixe-me fazer-lhe aqui um pedido: leia o menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias petrificadas e tornadas sem sentido em sua rispidez morta, ou hábeis jogos de palavras inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra” (p.31-32). O poeta tcheco sabia que tanto a literatura quanto a arte vinham de dentro e não de fora. Prova disto é a escritora brasileira Carolina de Jesus – negra, semianalfabeta e pobre, ela foi a primeira autora a contar como era a favela sob o ponto de vista de quem viva lá. E acabou virando best-seller, sendo traduzida para 13 línguas.
fórmula do sucesso é o nosso próprio mistério: “Por que deseja excluir de sua vida toda e qualquer inquietação, dor e melancolia, quando não sabe como tais circunstâncias trabalham no seu aperfeiçoamento? Para que perseguir-se a si mesmo com a pergunta: de onde pode vir tudo aquilo e para onde vai? Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se?” (p.68).

[RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. Porto Alegre: Editora Globo, 1978, 9° ed.]

sábado, 7 de março de 2015

Um monstro dentro da gente

Suzane von Richthofen foi a protagonista de um crime de fazer inveja a muitos mestres do cinema-policial. Quem poderia imaginar que uma moça rica, de 20 aninhos, universitária da PUC-SP e com um rostinho angelical pudesse ser a mentora de uma história tão macabra?
Pois foi. E na última semana – 12 anos após o assassinato dos pais – ela reapareceu para uma entrevista de fachada, ao lado de sua companheira, a sequestradora Sandrão. Com uma serenidade budista, Suzane respondia às perguntas do entrevistador. Disse amar o irmão, mesmo que ele não a amasse, disse que desistira da herança e que fazia planos para uma nova vida, revelando, inclusive, o seu desejo de ser mãe. Foi bonito até. Suzane fala bem, tem um sorriso bonito, é persuasiva... tanto que eu me convenci. “Ela se curou”, eu pensei, “os doze anos atrás das grades mudaram a cabeça dessa menina” e fui dormir, sossegado, acreditando num mundo melhor, na regeneração do serumano.
Três dias depois, porém, um programa de televisão fez um debate acerca do comportamento de Suzane e das coisas que ela falou. Um promotor, que participara do julgamento em 2006, disse que a entrevista havia sido uma encenação teatral e que a fina flor da sociedade paulista – personagem que ela teria representado durante a conversa – era uma jogada-estratégica para convencer os juízes que irão julgar, no ano que vem, a possibilidade do livramento condicional da ré, após decorridos 1/6 da pena. “Se é isto”, eu pensei, “então estamos diante de uma das maiores manipuladoras de que se tem notícia”. E para confirmar que não se tratava de uma calúnia, o promotor apresentou uma prova concreta – uma conta bancária na Suíça, com um saldo de 30 milhões de euros – dinheiro suficiente para se viver uma vida toda. De súbito, minha consciência estalou. “Então é por isso que ela dava risada e parecia não se importar com o lado de fora... com a grana, a moça se mandaria pra Europa e viveria por lá, de cabeça erguida, pois, de acordo com a lei, já teria cumprido a pena, isto é, já teria pago pelo crime”.
Desliguei o monitor, em choque. A fina flor da sociedade paulista, no fundo, era um monstro da pior espécie. Só fui conseguir dormir lá pelas 3 da madrugada, depois de contar muitos carneirinhos. Quando acordei, todo suado, sentia muito medo – não da assassina, é claro, mas das Suzanes que, secretamente, vivem dentro de nós.

domingo, 1 de março de 2015

Tudo Virou Massa

O mundo está carente de ideologias, de originalidade, de alternativas, de líderes, de utopias – o mundo virou massa. Não há mais pelo que lutar a não ser pelo patrimônio pessoal. Se fizessem uma pesquisa sobre o que os indivíduos projetam para o futuro, eu não tenho dúvida de que novecentos e noventa e nove em cada mil responderiam: casa na praia, carro do ano, viagem internacional, ascensão na carreira, dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Não se fala mais em amor, não se fala mais em poesia, não se fala mais em revolução; é como se todas as coisas de natureza subjetiva – difíceis de medir – tivessem perdido o sentido e até o próprio significado. As pessoas se perguntam “pra quê?” e não encontram resposta, não conseguem associar o mundo em que vivem com valores que não sejam materiais, objetivos. Logo, o amor se torna, também, um número, a poesia desaparece, porque não é vendável e a revolução vira um capítulo dos livros de História. Um exemplo: o sujeito, dominado pela lógica capitalista, só namora se a garota for gostosa e só se casa se ela pertencer a uma família importante, ou seja, a condição fundamental para que o relacionamento aconteça não é mais o sentimento interior, mas a aparência, o status externo.
É este o pensamento hegemônico em todos os setores da sociedade – no banco onde eu trabalho, na universidade onde eu estudei, na cidade onde eu cresci, na televisão que eu assisto – não há exceção, tudo foi engolido pelo mesmo buraco, tudo virou massa. Não sei de quem é a culpa – se dos políticos, que confundem o bem público com o bem privado, se dos grandes empresários, que não se cansam de criar novas “necessidades” de consumo, se dos terroristas, que decapitam seus prisioneiros, se dos Rolling Stones, que engravidam suas fãs – não sei, estou pirando.